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O delírio antropofágico em sua potência máxima, o caos urbano transformado em ópera pop subterrânea e a explosão de deboche que implodiu as convenções da tela. Em Sem Essa, Aranha, o mestre Rogério Sganzerla assina uma das obras mais radicais, febris e iconoclastas do Cinema Marginal brasileiro. Filmado na efervescência da mítica produtora Belair, o longa abandona qualquer linearidade para lançar o espectador em uma colagem alucinada de esquetes onde o Aranha, um milionário excêntrico e decadente interpretado de forma catártica por Jorge Loredo, encarna a elite predatória e ridícula de um país mergulhado no subdesenvolvimento e no absurdo.
Esta estampa é um tributo à linguagem de transe e guerrilha que define a assinatura visceral de Sganzerla. A peça celebra os planos-sequência frenéticos que cruzam as ruas do Rio de Janeiro e os morros cariocas, embalados por uma trilha sonora caleidoscópica que funde os gritos expressionistas de Helena Ignez ao samba tradicional e à música de vanguarda. Para o cinéfilo fascinado pela contracultura nacional, pelo cinema underground que transformou a escassez de recursos em pura subversão estética e pela crueza de uma obra que usa a gargalhada desesperada como arma política, esta peça é um manifesto artístico obrigatório. Vista a audácia de um clássico maldito que provou que, quando a realidade sufoca, a única saída é a radicalidade da arte.
